Almadrava: conjunto de redes de grande dimensão, articuladas entre si, fixas ao fundo do mar e suspensas até à superfície, para a pesca do atum. O vocábulo coexistiu durante alguns séculos com o termo armação de pesca, ou simplesmante armação, termos do mesmo significado. Caiu em desuso a partir dos finais do século XVIII e inícios do século XIX, passando somente a vigorar o termo armação de pesca, actualmente em uso.

Representação esquemática de uma almadrava. A zona de formato trapezoidal, denominada corpo encerrava os cardumes de atum que ao contornarem as redes exteriores dirigiam-se para dentro do corpo da almadrava. Aí ficavam presos, sem qualquer possibilidade de fuga, até ao momento do levantamento das redes. SANTOS, Luís Filipe Rosa - A pesca do atum no Algarve, Loulé: s.n., 1989, p.56.
O atum é um peixe de migração sazonal. Nos meses de Maio e Junho, vindo do Atlântico Norte passa pelo Golfo de Cádiz em direcção ao Mediterrâneo para realizar a sua postura anual. É o chamado atum de direito, porque dá a sensação de se dirigir direito à costa. Regressa novamente ao Atlântico em Julho e Agosto, pela mesma rota, com o nome de atum de revés, porque retorna ao mesmo local. No território nacional, o Algarve é a região com melhores condições hidrográficas para a sua captura, pois fica na rota de ida para o Mediterrâneo, e de volta ao Atlântico. Ao longo do litoral algarvio, as almadravas eram colocadas a pouca distância da costa em sentido longitudinal ao rumo do atum, de forma a interromper a sua marcha. Este, ao tentar contorná-las, dirigia-se para um compartimento totalmente fechado denominado corpo e aí ficava encurralado sem qualquer possibilidade de fuga. Estando o corpo suficientemente cheio de atuns, os pescadores içavam-no para a superfície e com uns ganchos metálicos encabados em paus, chamados bicheiros, «fisgavam» os ditos peixes para dentro das embarcações.

A localização das almadravas na costa algarvia. Nem todas as almadravas coexistiram em simultâneo. As setas indicam o movimento do atum ao longo do litoral. SANTOS, Luís Filipe Rosa - A pesca do atum no Algarve, Loulé: s.n., 1989, p. 48.
A referência documental mais antiga sobre as almadravas em Portugal data de 1305, quando D. Dinis autoriza o seu lançamento a João Momedes e Bonanati e lhe concede um empréstimo de 1500 dobras, mediante o pagamento da dízima e sétima parte dos atuns, espadartes e golfinhos capturados. Com efeito, a pesca ao atum por meio de armadilhas de rede era conhecida desde da Antiguidade Clássica. No século III a. C. o grego Appianus descrevia na sua obra “Haliêutica” um método de pesca aparentemente semelhante ao das almadravas. Ele menciona « armadilhas de rede que seguiam pelo mar adentro e em certa altura se fixavam, formando como que casas, com vestíbulos, portas e câmaras interiores onde o peixe era colhido em quantidades apreciáveis». A descrição de Appianus não é suficientemente pormenorizada para se poder identificar o aparelho de pesca, no entanto a introdução das almadravas em Portugal provavelmente remonta ao periodo islâmico. O próprio termo almadrava, que significa lugar de matança, parece apontar nesse sentido, pois é de origem árabe. Além disso trata-se de um método de pesca à muito conhecido nas comunidades piscatórias de Marrocos. A sua introdução no litoral do sul de Portugal poderá eventualmente ser atribuída a grupos populacionais oriundos da costa marroquina que entraram na península aquando da presença islâmica no Al-Andaluz.
Esta pesca estava incluída na categoria das Pescarias Reais, tal como a pesca da baleia, golfinho, corvina e espadarte. Eram actividades piscatórias de direito real, somente exercidas mediante autorização régia. Os interessados na sua exploração comercial tinham de pagar ao tesouro real 60% sobre o peixe capturado. A pesca do atum no Algarve interessou particularmente aos catalães e italianos, sobretudo sicilianos. Em 1368 armadores sicilianos estabelecidos em Lagos levam a cabo experiências visando uma maior eficácia das almadravas, e em 1440 D. Duarte arrendou-as a uma sociedade de sicilianos. Sabe-se também que em 1485 catalães e italianos exportavam milhares de arrobas de atum salgado para os seus países a partir do porto de Lagos. Aliás, o atum salgado sempre foi um produto de exportação, principalmente para o mercado italiano e catalão. Motivado pelo seu elevado preço, o mercado nacional nunca foi um grande consumidor de atum. Já em 1505, registra-se um contrato de arrendamento das almadravas entre o rei D. Manuel e um armador italiano, um tal de Bartolomeu «froletim», na importância de 1.310.504 reis. Em alguns casos constituíram-se sociedades comerciais com avultadas somas de capital para investirem na pesca do atum. No arquivo municipal de Messina (Sicilia) existem pelo menos três registos da formação de sociedades comerciais cujo fim era a pesca e comércio do atum algarvio. A participação dos mercadores sicilianos foi bastante incentivada, particularmente no reinado manuelino, através de isenções aduaneiras e medidas de protecção económica.
A cada almadrava correspondia um arraial. O arraial era o conjunto de cabanas, onde os pescadores residiam com as suas familias durante a temporada da pesca. Frei João de S. José, na sua obra Corografia do Reino do Algarve, de 1577, descreve um arraial de pescadores:
A pescaria deste peixe não só é proveitosa, [...] mas também de muito gosto e desenfado, porque [...] acode a ela grande soma de pescadores de todo Algarve, com suas mulheres, filhos e outra chusma e fazem suas cabanas por toda a costa onde estão as armações e continuadamente acode a eles toda a gente comarcã a lhe trazer todo o mantimento e refresco necessário e levar peixe, assi deste como d'outro que também ali morre. De maneira que cada armação parece ~ua feira. Cada armação não traz menos de 70, 80 homens de serviço, com suas barcas e caravelões pera recolher e levar o peixe onde se há-de dizimar e pagar os mais direitos, afora os mercadores do reino e d'outros muitos estrangeiros que tratam nele e o levam a suas terras.

Vista parcial de um antigo arraial. As cabanas, feitas de junco, apenas são habitadas nos meses de Abril a Agosto. SANTOS, Luís Filipe Rosa - A pesca do atum no Algarve, Loulé: s.n., 1989, p. 61.
À medida que as receitas aumentavam com os arrendamentos das almadravas, a autoridade real preocupava-se mais com a sua fiscalização. Para melhor administrar os direitos reais foi criado o cargo de Feitor das Almadravas em 1498. Os 60% de direitos reais contribuíam com importâncias cada vez maiores para o tesouro da coroa. Os tempos áureos da pesca atuneira perdura sensivelmente até 1619, com rendimentos anuais na ordem dos 10.500.000 a 20.000.000 reis.
Todavia os valores decrescem drasticamente. Nos três anos seguintes as receitas reais cifram-se em apenas 8 120 000 reis e daí em diante até 1721 a média dos rendimentos andará na ordem dos 800 reis, só havendo notícias de alguma recuperação em 1739. O Marquês de Pombal pretendendo revitalizar o sector, funda a Companhia Geral das Reaes Pescarias do Reino do Algarve em 1773. Para retirar a pesca do atum da crise foram revistos os tradicionais processos de exploração da actividade, de modo a satisfazer todas as partes envolvidas no trato; rei e armadores. Procedeu-se a uma “revolução” na gestão do negócio pela mão do Marquês de Pombal. Os direitos reais sobre o pescado diminuio para 20% e o preço do sal das marinhas de Castro Marim e Tavira barateou (900 réis o moio) para a pesca. A Companhia Geral das Reais Pescarias do Reino do Algarve tinha por concessão real a pesca e o comércio em regime de exclusividade de todo o atum na costa do Algarve, sempre renovada até 1836, ano da extinção da empresa.
Com o início do liberalismo económico após a guerra civil de 1832-34 surgiram várias empresas de pesca no Algarve que exploravam uma ou mais almadravas. O número de almadravas subiu continuadamente ao longo do século XIX, atingindo o número máximo de 19 entre 1898 e 1903. A pesca do atum conheceu um período de prosperidade económica até ao fim da I Guerra Mundial. Depois com a desvalorização dos preços, a concorrência de outras artes de pesca e o decréscimo da afluência do atum, as almadravas foram-se extinguindo gradualmente, até que em 1971 desapareceram definitivamente.
A captura do atum caracteriza-se pelos profusos movimentos energéticos do peixe que tenta desesperadamente fugir à morte certa, e pela azáfama dos pescadores que parecem “dançar” na esforço de arpoarem a presa. A água torna-se rubra e branca do sangue e da espuma, dando tons vivos ao jogo de movimentos. O «copejo», espectáculo de cor e acção caótica, conhecido também como a “tourada do mar” despertou a atenção de alguns escritores consagrados da nossa literatura. Raul Brandão foi um deles e descreveu-o do seguinte modo:
“Uns homens têm na mão direita a ganchorra curta e afiada, presa ao pulso pela alça, e outros, armados de um bicheiro mais comprido, só esperam que o atum comece a saltar para o chegarem aos barcos. Agita-se a água...Vêem-se os grande dorsos reluzentes e os rabos que chapinham....Espetam o peixe. Para não caírem à água, deitam a mão esquerda à corda amarrada ao pau de entrevela, curvam-se e fisgam-nos pela cabeça. O peixe resiste e quer fugir: sentido-se preso, ergue-se, apoiado na cauda e é esse movimento de recuo que ajuda o homem a metê-lo para dentro da caverna, largando logo da mão o bicheiro, que lhe fica suspenso do pulso pela alça. Baixa-se o homem, ergue-se logo...Os barcos estão cheios de peles luzidias e de manchas gordurosas de sangue. São bichos enormes e escorregadios, de grossa de pele azulada, que batem pancadas sobre pancadas com o rabo.
A gritaria aumenta – Eh! Eh!...- É uma mixórdia que me cansa. Só vejo manchas sobre manchas, sobrepostas, a cor e o movimento, a cor dos homens, a cor dos grandes peixes que se debatem e morrem e a agitação que se precipita e acelera os gestos confundidos. E sobre tudo isto um grito, um grito de triunfo, o grito de matança que explode numa alegria feroz, a alegria primitiva: - Eh! Eh!...- num quadro imutável, todo vermelho e negro.... Cheira a açougue. A água tinge-se de sangue, a água pegajosa encharca os barcos. Misturam-se as cores e as peles escorregadias.... A carnificina enfarta e enjoa.... há laivos nódoas de sangue na tinta azul do mar.... Imensa tela a tons violentos, com uma agitação frenética no primeiro plano.”

Os pescadores preparam as âncoras para serem lançadas ao mar. As âncoras tinham por função prender a grossa rede ao fundo do mar, de modo a evitar que a almadrava fosse arrastada pelas correntes marítimas. GALVÃO, António Miguel - Um século de História da Companhia de Pescarias do Algarve, Faro: Edição de Companhia de Pescarias do Algarve, 1948, p. 25.

Inicio da levantada, ou seja, do levantamento da rede do fundo do mar. Como se pode ver na imagem, a rede forma um cerco que encerra dentro de si os cardumes de atum, não visíveis na imagem porque ainda estão perto do fundo marinho. GALVÃO, António Miguel - Um século de História da Companhia de Pescarias do Algarve, Faro: Edição de Companhia de Pescarias do Algarve, 1948, p. 120.

Fase final da levantada. O levantamento da rede obriga o atum a subir até à superficie. O cerco fica cada vez mais apertado, a àgua espumosa e o atum, nervoso, tenta escapar. GALVÃO, António Miguel - Um século de História da Companhia de Pescarias do Algarve, Faro: Edição de Companhia de Pescarias do Algarve, 1948, p. 120.

O copejo, isto é, a operação que consiste em colocar o atum dentro das embarcações. Os pescadores, munidos de ganchos metálicos, denominados bicheiros, tentam golpear os atuns que passam por perto. GALVÃO, António Miguel - Um século de História da Companhia de Pescarias do Algarve, Faro: Edição de Companhia de Pescarias do Algarve, 1948, p. 121.

Mais um aspecto do copejo. Os pescadores esforçadamente puxam o atum para dentro da lancha. GALVÃO, António Miguel - Um século de História da Companhia de Pescarias do Algarve, Faro: Edição de Companhia de Pescarias do Algarve, 1948, p. 121.
Outro aspecto do copejo. Nesta foto vê-se que são necessários dois homens para colocarem o atum dentro da embarcação. GALVÃO, António Miguel - Um século de História da Companhia de Pescarias do Algarve, Faro: Edição de Companhia de Pescarias do Algarve, 1948, p. 121.
Nesta imagem é bem visível o golpe que o pescador disfere no atum. GALVÃO, António Miguel - Um século de História da Companhia de Pescarias do Algarve, Faro: Edição de Companhia de Pescarias do Algarve, 1948, p. 122.
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